quarta-feira, 8 de setembro de 2010

OS "LUSÍADAS" E AS FORÇAS ARMADAS

À Marinha

Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas.

(Do Canto I – XIX)



Ao Exército

Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
De além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno.

(Do Canto III – XLII)



À Força Aérea

Vistes que, com grandíssima ousadia,
Foram já cometer o Céu Supremo;
Vistes aquela insana fantasia
De tentarem o mar com vela e remo;
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Soberbas e insolências tais, que temo
Que do Mar e do Céu, em poucos anos
Venham deuses a ser, e nós, humanos.

(Do Canto VI – XXIX)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A CRUZ DE CRISTO EM DEMANDA DO CRUZEIRO DO SUL



As portas do céu
Abriram-se de par em par!
E a Cruz de Cristo
Voou!... Rumou p’lo ar
Como outrora
- a horas certas
Nas naus e caravelas
seguindo as estrelas
Do tempo das Descobertas!

Voou!... Voou!... sem par
Essa cruz alada de Cristo
como nunca fora visto
Através do longo mar
p’lo espesso azul
Rumo ao Cruzeiro do Sul!

Foi em manhã primaveril...
O ‘Lusitânia’
ficou na história
Sob cores do Arco-Íris
- Pátria auréola de glória
Levando, em voo - rumo ao Brasil –
Coutinho e Cabral
Abraços fraternos
de Portugal!

É a Nação que esvoaça
Buscando irmãos da mesma raça.
São dois Lusos corações
- novos descobridores
Intrépidos aviadores
Unindo a língua de Camões!

Setenta e cinco Primaveras
são passadas
Desse glorioso feito Atlântico.
Fronteiras do vento
ultrapassadas;
Foi o sextante
na conquista da navegação;
E dos Lusíadas – outro cântico:
Uma nova Epopeia – Aviação!

(Lisboa, 1997)

30 de Março de 1932 – Partida do ‘Lusitânia’ para a 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul.

domingo, 1 de agosto de 2010

Carta de um COMBATENTE!

Perdõem-me os leitores deste meu Blog, a falta de modéstia, mas não resisto a publicar a carta recebida do Capitão Caetano Careto, de Tomar, que muito me emocinou.
Faço-o não pelos elogios que tece relativamente ao meu poema «O combatente» publicado neste Blog, em 10 de Setembro de 2009, que de facto, humildemente me orgulham, mas fundamentalmente por transparecer o sentimento de um Combatente, eco de tantos outros, que de alguma forma se sentem amargurados e discriminados pela forma como o poder político os tem esquecido.
Igualmente como Combatente, compartilho consigo Capitão Careto, não apenas as suas angústias pela forma como somos «esquecidos» mas igualmente, a tanquilidade “consciente do dever cumprido”, tal como refere na sua tão sensibilizante missiva!
Agradeço as suas palavras e fico muito feliz por ter reconhecido que os meus poemas não são constituidos por palavras vãs e em rima, mas também e, fundamentalmente, traduzem um estado de alma, cuja mensagem o Capitão Careto tão subtilmente conseguiu apreender.
Muito obrigado e bem haja!
António Perestrello

Transcrição da carta, do Capitão Caetano J. B. Careto:

«Não tive a subida honra de o conhecer.
Mas, por imperativo de consciência, e após ter lido
o seu poema “Combatente”, teria que levar ao Seu
conhecimento tudo o que a leitura desse Poema
trouxe ao meu espírito de antigo Combatente. Cumpri 4
Comissões de serviço por imposição no Ultramar,
Todas elas a 100% de aumento de tempo de serviço.
Tenho 79 anos de idade, sou casado e com 2 filhos de
40 e tal cada. Tenho 2 netos de 20 anos. Tive o
orgulho de pertencer à 7ª Companhia de Caçadores
Especiais que desembarcou em Luanda a 16 de Março de
1961. Seguiram-se as outras três ao ritmo que V. Exª
tão bem conhece. Regressei, graças a Deus, vivo e
escorreito. Hoje sou um Combatente Amargurado!
Por tudo o que lhe contei, meu Coronel, poderá
avaliar quanto o seu poema me tocou. Senti esse Poema
como me fosse dirigido, mas ele serve perfeitamente
às centenas de milhares de Camaradas que pelas matas
de Angola, Guiné e Moçambique deixaram os melhores
anos das suas vidas ao Serviço da DITOSA PÁTRIA
nossa Amada.
Creio que, quando partir, irei tranquilo, consciente
do dever cumprido no qual se incluía, também, levar
ao conhecimento de V. Exª toda a minha emoção e
gratidão pelo seu belo, oportuno e adequado Poema.
Aceite, meu Coronel, as minhas desculpas pelo
incómodo por ter lido estas meras linhas e aceite
também os meus respeitosos cumprimentos.
Caetano João Bigares Careto, Cap. SGE/Refº.Tomar, 10 de Julho de 2010»

domingo, 25 de julho de 2010

DESCOBRIMENTOS

Foram ondas
Foram ventos
tempestades
e tormentas


Fui naufrágio
marinheiro
Fui calema
aventureiro
Corri Mundo
sonhei mar
Foi profundo
meu sonhar!


Fui caravela
veleiro
Fui sextante
timoneiro
Fui Mostrengo
Adamastor
Fui poeta
trovador!


Rumei Índias
vi Brasil
Fui Gama
e fui Cabral
Dei à Primavera
Abril
Escrevi história
imortal!


Vi terras
dos Quatro Ventos
Deixei em Terra
lamentos
Vi nos Céus
meu ideal
Lancei ao mar
sofrimentos
Fui Rei
dos descobrimentos
O meu nome:é PORTUGAL!...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

TERRA DESERTA

Vimos estrelas
chamarem o firmamento
Para além do horizonte
do sol-posto
Onde naus e caravelas
foram vento
E o fogo de Santelmo
tinha outro rosto!


Fomos gente
outra gente
em outra aragem!
Seguimos as estrelas
do tempo
a horas certas!
Fora-nos suprema a coragem
e, mais que sublime,
fora a glória.


Fomos Estrela Polar
das descobertas!
Seguimos à luz de Cristo
o caminho da vitória!
Abrimos, pela Cruz,
a vasta história!
Deixámos ao Mundo
as portas bem abertas!


Se hoje, somos só
terra nascida...
Seremos, ainda e só
apenas memória!?
Seremos então, apenas história
d’um tremor de terra
que a Terra faz deserta!?...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

JÁ FOMOS... CABO NÃO!


Já fomos… Cabo Não!...
...
Depois de tantos tormentos
Chegámos à Boa Esperança
Na Era - “DESCOBRIMENTOS”!...
E do Império d’Então
Viveremos, hoje, lembrança!
...
Resta-nos a herança
De vivermos a solidão
dos mares
dos céus
e dos ventos...
Perdido d’um ideal
Achado, entre lamentos,
o nome de PORTUGAL!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

DIA DE PORTUGAL_Homenagem a um herói!








Neste dia 10 de Junho, Dia de Portugal, decorreu também, o XVII Encontro Nacional dos Combatentes.
O evento iniciou-se com uma Missa, às 10H15 na Igreja de Santa Maria, do Mostreiro dos Jerónimos, em Belém, por intenção de Portugal e de sufrágio pelos que tombaram pela Pátria. A celebração esteve a cargo do pároco de Santa Maria de Belém e teve a colaboração do «Coral Arautos do Evangelho» e do Terno de Clarins da Guarda Nacional Republicana.
Seguiram-se as comemorações junto ao Monumento aos Combatentes.
Essa comemoração singela, mas de elevado sentido patriótico, procurou agregar todos os cidadãos, independentemente da idade, credo, raça ou ideologia política, numa manifestação de amor à sua Pátria e em homenagem a todos aqueles que tombaram ao seu serviço.
O acontecimento deste ano, presidido pelo Almirante Vidal de Abreu, foi marcado pela homenagem ao Comandante Oliveira e Carmo, Herói de Diu, que como comandante da Lancha “Vega”, tombou heroicamente em combate, com alguns dos seus subordinados, em 18 de Dezembro de 1961.
Após a descrição dos acontecimentos, usou da palavra a Senhora Dona Maria do Carmo Oliveira e Carmo, que na presença de familiares, e exortando a figura do militar e marido, realçou o suporte de rectaguarda que, orgulhosamente, é vivido em silêncio pelos familiares dos combatentes, alimentado pelos mesmos valores de amor à Pátria!

Porque seu exemplo, que se inscreve nos valores que defendo neste meu Blog, considero da mais elementar justiça vergar-me perante a grandeza moral do comandante Oliveira e Carmo, deixando aos meus leitores o curriculo desde herói nacional, que transcrevi do folheto editado pela Comissão Executiva, para este evento:


« HISTÓRIA BREVE DE UM HERÓI
SEGUNDO -TENENTE OLIVEIRA E CARMO

Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo nasceu em Santo Estêvão, Concelho de Alenquer, em Setembro de 1936.
Concluiu o curso secundário no Liceu Pedro Nunes em 1954, tendo ingressado na Escola do Exército em Outubrodo mesmo ano para efectuar os estudos preparatórios ao ingresso na Escola Naval.
Promovido a Guarda-marinha em 1 de Maio de 1958, embarcou em vários navios, tendo também prestado serviço na Superintendência dos Serviços da Armada e no Comando da Flotilha de Patrulhas. Foi promovido a Segundo-Tenente no último dia daquele ano.
Serviu a bordo dos patrulhas "Boavista" e “Porto Santo” e na fragata “Pêro Escobar”, onde o seu elevado brio, o seu inquestionável sentido das responsabilidades e do dever e o seu exemplar aprumo militar foram alvo dos maiores elogios. Nomeado comandante da lancha de fiscalização “Vega”, a prestar serviço em Diu, para ali partiu no Verão de 1961.
Naquele território, à semelhança dos restantes que faziam parte da India Portuguesa, pairava desde há muito a ameaça de anexação pela poderosa União Indiana. A temida invasão acabaria por se concretizar, de forma esmagadora, na madrugada de 18 de Dezembro de 1961. O combate extremamente desigual que se desenrolou constituiu o ponto culminante da curta carreira de Oliveira e Carmo, que no seu abnegado heroísmo viria a escrever uma das mais gloriosas páginas da nossa História Naval.
O COMBATE
Tendo saído de Diu em 17 de Dezembro, a "Vega" fundeou frente a Nagoá às 22HOO desse dia. Na madrugada do dia 18, por volta das 01H40, foram ouvidos tiros em terra
pela praça de serviço. Alertado, o Comandante manda ocupar postos de combate e suspender*.
Dirigiu-se então a lancha na direcção de um contacto radar não identificado que navegava acerca de 12 milhas da costa. Por volta das 04HOO, esse navio, visualmente identificado como um cruzador, lançou granadas iluminantes e abriu fogo de metralhadora pesada sobre a “Vega", que retirou para Diu e fundeou.
Ás 06H15 suspendeu e aproximou-se novamente do cruzador, onde foi vista, içada no mastro, a bandeira da União Indiana. A lancha regressou ao fundeadouro e Oliveira e Carmo fardou-se de branco para, segundo afirmou, morrer com mais honra.
Às 07HOO foram avistados aviões a jacto efectuando bombardeamento sobre terra. O Comandante reuniu a guarnição e leu-lhes as ordens do Estado-Maior da Armada, segundo as quais a lancha deveria combater até ao último cartucho.
Cerca das 07H30 aproximaram-se dois aviões para bombardear a Fortaleza e Oliveira e Carmo mandou abrir fogo sobre eles com a peça de 20 mm (um dos aparelhos acabaria por ser atingido e obrigado a aterrar). Estes, naturalmente, ripostaram. Agilmente manobrada pelo seu comandante, a “Vega” esquivou-se às primeiras rajadas.
No entanto, um novo ataque desta vez com fogo cruzado matou o marinheiro artilheiro António Ferreira e cortou pelas coxas as pernas de Oliveira e Carmo que, ainda com vida, retirou do bolso e beijou as fotografias da mulher e do filho pequeno. Deflagrara entretanto um violento incêndio que rapidamente se propagou à casa da máquina e à ponte. A peça foi abandonada, em virtude do seu reduto se ter tornado intransitável devido aos buracos causados pelos projécteis inimigos e pelo incêndio, que já grassava no convés.
A guarnição tentou então arriar a bote para evacuar o Comandante, mas um novo ataque aéreo feriu mortalmente Oliveira e Carmo, tendo também sido atingidos três marinheiros (um deles, marinheiro artilheiro Fernandes Jardino, com a perna esquerda cortada pela canela, viria a falecer no trânsito para terra).
Com o bote inutilizado e a lancha completamente tomada pelas chamas, viram-se os sobreviventes obrigados a nadar em direcção aterra, agarrando-se os feridos a uma balsa. Sacudida pelas explosões das suas próprias munições, a “Vega” acabaria por se afundar, arrastando consigo o corpo do seu heróico Comandante.
Oliveira e Carmo foi, a título póstumo, condecorado com a Medalha de Valor Militar com Palma, agraciado com o grau de Comendadorda Ordem Militar da Torre e Espada e promovido por distinção ao posto dê Capitão-Tenente.
Foi patrono do curso 1962/1967 da Escola Naval.


* Levantar o ferro»